Curiosidades sobre o Transporte de São Paulo – Por Rafael Anton

1. Metrô é mais do que um sistema de transporte. É um elemento cultural. As pessoas se reconhecem pelo metrô. As estações são ponto de encontro. Estar perto delas valoriza qualquer terreno, casa ou comércio.

2. Todos os terminais de ônibus – mais de 40, creio eu – são abertos. Há integração apenas via bilhete único. Estruturalmente, são normais. Linhas alimentadoras e troncais. Articulados e biarticulados dominam as troncais em alguns deles. Nas alimentadoras, parecem predominar os micro-ônibus de cooperativas.

3. A lógica é: as linhas alimentam o metrô. Todo ponto perto de estação é um dos principais da linha – às vezes o principal. Mesmo onde não há terminal, há linhas alimentadoras bairro-metrô. Também vejo linhas troncais metrô-centro, metrô-terminal ou metrô-qualquer lugar da cidade. Normalmente, o metrô é o ponto de referência principal de um bairro. E isto foi construído historicamente.

4. Também há muitas linhas radiais, não só para o centro, mas para diversos pontos da cidade, vindas de diversos bairros.

5. As linhas que fazem o roteiro mais cabeçudo possível também são comuns. Umas são diretas (normalmente as troncais), mas tem umas cujo roteiro dá dó do motorista (e dos usuários).

6. Existe um padrão de cor e código para cada região da cidade. Mas na prática isso já morreu. Vejo uma bagunça generalizada, com ônibus de cor X na área Y, códigos misturados, etc.

7. Falando em código, impossível é entender a codificação de SP. Existem códigos de 3 ou 4 dígitos. Os de 3 dígitos são as linhas que ligam bairros distantes fora do centro. Aí o 1º dígito indica a região, ok. O segundo, se for ZERO, ele cruza a cidade via centro. Se for de 1 a 6, não passa no centro. Se for 7, passa num metrô. O terceiro dígito é a região do destino. E ainda tem uma LETRA no final, que diferencia a linha de outras parecidas. É como se tivesse 1228A- JD SANTO INÁCIO – BARROQUINHA / 1228B- MATA ESCURA – BARROQUINHA / 1228C- TANCREDÃO – BARROQUINHA. Já as de 4 dígitos são linhas locais (alimentadoras) ou radiais para o centro. Aí o segundo dígito, se for 0, é linha regional. Se for 1 a 6, refere-se ao ponto em que sai do corredor. Sim, eu não entendi. Pq além de tudo, qualquer linha ainda tem mais um hífen e dois dígitos, que eu não sei o que dizem. Mas reparei que são 10, 21 ou 41. Não, não faço a menor ideia. Talvez seja melhor não tentar entender.

8. O sistema de informação via apps é muito bom. Cittamobi, cadê o Ônibus (ambos com tempo real), Moovit e até o Google Maps, funcionam muito bem. O app do metrô e CPTM são ótimos, calculam o tempo entre as estações que vc quer, já prevendo o tempo necessário para integração, inclusive. E funciona mesmo sem internet. Ainda tem o app da EMTU, com tudo, até tempo real, sobre os ônibus metropolitanos. Isso é muito necessário, pois a cidade é muito grande, tem linhas demais (mais de 1300), e as pessoas não conhecem nada. Cansei de perguntar a POLICIAIS pontos de referência do CENTRO, estando NO centro, e eles não conhecerem. Ou seja, você precisa de algo nas suas mãos, para nunca depender das informações de um paulistano.

9. Falando neles, parece ser meio bagunçado. Há um cartão, mas não sei se integra com urbanos. Tem dois terminais que integram gratuitamente com o metrô, mas só para duas cidades, na mesma região.

10. Motoristas e cobradores são meio mangueados. Nem sempre usam farda, cortam roteiro, correm demais (demais MESMO), deixam caronistas entrarem.

11. Algumas inovações são muito interessantes. Máquinas de recarga dentro de alguns ônibus. Ônibus com duas catracas (uma com e uma sem cobrador). Piso baixo. Ônibus com ar condicionado em algumas linhas. Por outro lado, em algumas alimentadoras, ainda persistem Apaches Vip 1 como se não houvesse amanhã. Nos EMTU, já vi Caio Alpha rodando livremente.

12. Quase não vejo apache S22.

13. Nem Torino. Em compensação, muitos Gran Viale.

14. MUITA gente encara 1h, 1h30 a mais na viagem para ir sentado no ônibus se for um só até em casa. A ideia de pegar vários ônibus e metrôs assusta, mesmo quem já está acostumado. Além do quê, a integração deixa a passagem mais cara.

15. A maior desgraça do transporte de São Paulo se chama: Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM.

16. Tente pegar um trem da CPTM em qualquer linha às 6 da manhã. Se conseguir, considere-se um herói. Vida de gado.

17. Aliás, morar na grande SP é muito difícil. Em algumas cidades, as linhas urbanas entre os bairros e as estações de trem ou de ônibus EMTU começam a rodar ANTES DAS QUATRO DA MANHÃ, para que dê tempo de você se locomover até o seu destino final.

18. Pior que isso: morar dentro de SP e não ter estação de metrô, e, ao invés disso, ter uma estação da CPTM. Por que isso significa que de manhã você não sai dali.

19. Uma coisa divinamente boa: as faixas de ônibus. Nunca vi funcionar tanto. O que uns radares e multas não fazem. Resultado: avenidas engarrafadas e o ônibus passando de boa.

20. Ônibus bom aqui não é luxo. Sem eles, não dá. Imagine o quão sufocante é morar na periferia das periferias da periferia do cu de São Paulo. Agora considere levar 3 horas diárias pra ir, e mais 3 pra voltar. Agora considere milhões de pessoas fazendo isso. Agora considere isso sem um articulado. Agora considere a concorrência com metrô e CPTM. Ai da SPTrans se permitisse linhas troncais com Apache VIP.

21. Integração é mais que necessária. Você não percorre essa cidade sem bilhete único jamais. E acredite, nem sempre, 3 horas serão suficientes.

22. Não há câmera ou biometria para os cartões de estudante. Considerando que muitos ônibus não têm cobrador, você já sabe como funciona a patifaria.

23. O metrô é um meio muito utilizado pela classe média-alta, o que seriam, em SSA, os moradores do Imbuí, Pituba, Rio Vermelho, Barra, alguns pontos de Brotas e Cabula. Sim, muitas vezes, ele sai melhor do que carro.

24. Como eu falei, é um produto cultural. E mais do que isso, ponto de referência. Várias estações de metrô são anexas a shopping-centers (que detém o direito de levar o nome “SHOPPING METRÔ”), tem tomadas de celular, lugar pra namorar, pontos de encontro, lanchonetes, farmácias, lotéricas, etc.

25. Não espere isso nas estações da CPTM.

26. A CPTM informa: Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma. Cuidado com a fenda entre o trem e a plataforma. Cuidado com o abismo entre o trem e a plataforma. Cuidado com a falha geológica entre o trem e a plataforma.

27. O motivo do sucesso do metrô de São Paulo, para além da sua necessidade, pode ser um outro: ele chega nos pontos de referência. O centro é todo coberto. A Paulista, que é mais movimentada que o centro, tem três estações. A região empresarial atual (Pinheiros, Faria Lima, etc.) é toda coberta por uma linha da CPTM. As 3 rodoviárias são anexas a estações. Vários shoppings também. Pontos centrais em bairros também. Hipermercados. Hospitais. Quase todos os estádios. E isto é uma bola de neve: por um lado, ele é bem pensado para chegar nesses pontos. Por outro lado, certos pontos surgiram por haver metrô ali. Bem complexo. Continuo defendendo metrô na Barra, Campo Grande e Calçada.

28. A CPTM hierarquiza suas linhas. A linha 9, que atende às áreas nobres de SP, só tem trens novinhos, com tudo digital e cheirinho de leite. Agora, vamos falar sobre a linha 12…….

29. Falando em linhas da CPTM, são 3 as linhas que tem seccionamentos dentro da própria linha: a 7, a 10 e a 11. Interessante que a 11, na primeira seção, é chamada de Expresso Leste, por não parar nas estações do metrô linha 3, mesmo seguindo o mesmo percurso.

30. Falando em linha 3, ela tem que explodir. É a linha urbana mais lotada do… mundo. E isso pq a zona Leste de São Paulo tem mais de 3 milhões de habitantes, e é praticamente atendida só por ela. A ampliação da linha 2 pegou um pedaço, ok. A CPTM pega outra fatia, mas na hora do pico, não pega ninguém por que não cabe. De ônibus, a zona Leste é mais longe que Nárnia.

31. Existem corredores de ônibus segregados ou elevados. A exemplo do Fura-Fila, ou Expresso Tiradentes, que liga o centro da cidade a um bairro chamado Cidade Tiradentes, que fica “um pouquinho” longe. Desconfio que fica mais perto do Rio de Janeiro do que da praça da Sé. 2h de ônibus até a estação de metrô mais próxima, que é a estação mais distante da linha mais longa. Então, construíram o Fura-Fila. Um corredor de ônibus que passa por cima da cidade, com algumas linhas exclusivas de Trolébus. Também tem o corredor ABD, que é também por cima (em alguns trechos), mas só com linhas metropolitanas EMTU (para São Bernardo do Campo, Santo André e Diadema – daí o nome ABD).

32. Quando uma linha da CPTM é interditada – todo dia – a SPTrans disponibiliza o PAESE – ônibus fazendo o percurso do trem. Uma vez peguei um. Não foi legal.

33. Existem estações da CPTM e do metrô que são verdadeiros desertos. Mas não existem trens vazios em nenhuma linha da CPTM nem do metrô (ênfase na CPTM). Considere agora que ambos funcionam em trens com 6 vagões. E que os intervalos do metrô não passam de 5 minutos (fora do pico) e 2 minutos (no pico). E que os intervalos da CPTM nos dias úteis são de 5 a 10 minutos (20 no máximo, num domingo à noite). Agora, imagine a estação da Luz recebendo um trem da CPTM por minuto (2 linhas) carregando toneladas de pessoas. Agora, considere que esta estação recebe um metrô a cada meio minuto (2 linhas também). E que ela integra essa porra toda. Resultado: há estudos que dizem que a estação da Luz pode entrar em colapso nos próximos anos. E que um incêndio lá dentro é uma verdadeira tragédia anunciada. Agora, considere isso em todas as estações que integram metrô e CPTM.

34. Na CPTM, rola comércio ambulante ilegal nos trens. MUITO. Mas é proibido. Então, os caras fazem verdadeiros malabarismos. Olham sempre antes de sair do trem. E criam frases engraçadas, tipo: “chocolate de Moscou. O guarda moscou, eu vendo”. “Shopping-Trem”. “Novidade da Cacau Show na sua mão” (AH TÁ). Já no metrô, é muito difícil, pois rolam guardas dentro dos trens, e é mais difícil fugir da estação por ser quase sempre subterrânea ou elevada.

35. Sorria. Essa é São Paulo. Boa sorte.

Rafael Anton

Rafael Anton

101% geógrafo e professor. Acredita que as cidades podem ser espaços melhores para se viver. Soteropolitano sem raízes, com pés que vão de Feira de Santana a São Paulo, e podem ir mais adiante ainda.

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Um comentário em “Curiosidades sobre o Transporte de São Paulo – Por Rafael Anton

  • 14 de agosto de 2016 em 19:22
    Permalink

    Faltou falar um pouco do Bilhete Único que não existe só um tipo de cartão, o mais interessante seria falar do uso do BU mensal de integração total, rs

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